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Posts Tagged ‘Paulo José’

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Esta semana, tive o privilégio de ficar a poucos metros de um de meus ídolos e ouvi-lo falar sobre seu trabalho: Michel Gondry, diretor de várias obras-primas do videoclipe, de alguns comerciais memoráveis e do filme Brilho eterno de uma mente sem lembranças. Ele esteve na Central Globo de Produção, onde eu trabalho, para falar de seu processo criativo e de sua carreira. Gondry se mostrou muito bem-humorado, elegante e paciente. E, num breve instante, após a exibição de um comercial fantástico que ele fizera para a vodka Smirnoff, ele revelou o menino que tem dentro de si – para uma plateia embasbacada com a criatividade da narrativa e dos efeitos visuais do vídeo, ele comentou com orgulho de criança: “Gostaram da música (do comercial)? Fui eu que fiz!” Era Gondry mostrando que seu talento é ainda maior do que parece. E mostrando também por que ele diz que terá 12 anos para sempre.

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O ator e diretor Paulo José estava na plateia e fez questão de pegar o microfone em dado momento para homenagear Gondry, definindo-o de modo exemplar:

Michel Gondry é um artista cheio de ideias estúpidas. E muito originais. O que o caracteriza é a autenticidade. No fim de semana, fui a uma festa na casa da Mariana Ximenes, com uma gente toda elegante desfilando suas roupas, Luis Fernando Carvalho usando uma echarpe enorme e tal… E, de repente, aparece o Gondry, mais parecendo um entregador de pizza, numa simplicidade tremenda. Quando vi aquilo, lembrei de Grotowski e do nosso Boal. Assim como eles, Gondry não se engana, não se ilude. Ele desmonta a linguagem o tempo todo. Ele não tem um padrão de qualidade, coisa que temos tão forte aqui (na Globo). Ele inventa coisas insólitas e, ao mesmo tempo, tão comuns. Elas não nascem da racionalização, mas da fantasia. O roteiro de Amarcord, do Fellini, por exemplo, é de uma simplicidade absurda, mas parecia inviável. Assim é o trabalho do Gondry. Não é como o Syd Field, que te ensina a fazer um filme exatamente igual a todos os outros. As pessoas confundem originalidade com desordem, mas existe uma diferença entre fazer mal feito e fazer diferente.”

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A seguir, destaco alguns depoimentos dados por Michel Gondry durante o encontro:

O videoclipe como arte

Você pode ver o videoclipe apenas como uma ferramenta de promoção. E pode vê-lo como uma expressão artística. Nos 3 minutos do clipe, você tem muito mais informação do que nos 3 minutos da música isolada. Você consegue dizer mais no mesmo tempo. As canções, assim como os poemas, são cheias de passagens que fazem você se perguntar o que elas significam. O que eu não entendo na música, tento completar com minha visão. Crio o videoclipe como algo complementar à música.”

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“Eu uso os efeitos visuais como forma de expressão”

O efeito visual entra no meu trabalho para expandir a criatividade e dar mais profundidade a uma ideia.”

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“Só faço comerciais pelo dinheiro”

Ao fazer um comercial, você tem que ouvir a opinião de tanta gente, tem que agradar a tantas pessoas, que acaba não se conectando direito com o trabalho. Quem encomenda um comercial não quer que eu seja eu mesmo na criação, não confia em mim; então, não me sinto tão responsável pelo resultado. Não é como trabalhar com Björk, que confia totalmente em mim. É completamente diferente quando faço um filme, pois no meu filme eu posso fazer o que quiser, consigo dedicar mais tempo à criação do que à filmagem. Claro que fica um monte de gente dando opinião e que há uma troca com os atores, mas não há tanta interferência na criação.”

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“É muito importante saber vender sua ideia”

Para crescer e me desenvolver no meu trabalho, tive que aprender a escrever minhas ideias, pois é muito importante saber vendê-las. Quando fiz o primeiro clipe da Björk, por exemplo, ninguém me conhecia. Então, não bastava eu dizer que faria algo diferente e especial, eu tinha que apresentar um roteiro convincente. É bom, porque o roteiro também ajuda você a não se perder no trabalho, ele lhe dá uma direção a seguir.”

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De diretor de clipe a cineasta

Nos tempos de colégio, eu me destacava por desenhar muito bem. Minha especialidade era desenhar mulheres nuas, eu tinha uma técnica especial para isso. Quando entrei numa escola de desenho, tudo mudou: ali, todo mundo desenhava bem, eu não me sobressaía. E isso foi muito bom, me fez mais humilde. Algo parecido aconteceu quando eu saí dos videoclipes para o cinema: eu estava me metendo em um segmento onde eu não me destacava. E quando você muda de segmento, ninguém o incentiva, você tem que provar que é bom naquilo também.”

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“Dirigir um ator num filme é bem diferente de dirigir uma banda num clipe”

O ator está mais habituado com a câmera. O músico, não. A banda chega e diz que não precisa aparecer no vídeo. Daí você precisa desenvolver estratégias para envolvê-los. Você tem que levá-los na conversa para fazê-los gravar do jeito que você quer. Muitas vezes, a criação do clipe é toda minha; outras, a banda já chega com uma ideia e nós vamos aperfeiçoando-a juntos. No caso da Björk, a criação é sempre metade minha, metade dela, criamos juntos, um vai interferindo na ideia do outro, pois há muita confiança e afinidade entre nós.”

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“Por os problemas no papel funciona bastante”

O roteiro do meu primeiro filme, Human Nature, escrito por mim em parceria com Charlie Kaufman, era considerado infilmável. E isso era um estímulo para nós. Realmente, era muito difícil de fazer. Cheguei a ficar deprimido com a quantidade de problemas que o filme tinha e que eu não conseguia resolver. Então eu me isolei no campo, onde fui criado, e listei num caderno todos os problemas que eu havia identificado no filme. Depois, me dediquei a pensar em como resolver cada um deles, e acabei preenchendo o caderno inteirinho com soluções. E assim consegui realizar o filme. Funciona bastante pôr os problemas no papel, porque assim você consegue compreendê-los com mais clareza e se sente comprometido a resolvê-los. Em cada quadro do filme, tentei fazer algo que eu nunca tinha visto antes. E fiquei muito feliz com o resultado. Mas as críticas foram péssimas…”

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“As pessoas só falam de mim como o diretor de Brilho eterno de uma mente sem lembranças, mas não será assim para sempre.”

Já as críticas ao meu segundo filme foram todas excelentes. As pessoas só falam de mim como o diretor de Brilho eterno de uma mente sem lembranças, mas não será assim para sempre. Isso é um pouco chato às vezes, mas é natural. Quando fiz o primeiro clipe para Björk, as pessoas ficaram 5 anos só falando dele, mas depois fiz outros clipes e o foco foi mudando. Então, eu sei que Brilho eterno será por muito tempo o destaque da minha carreira, mas sei também que farei outros filmes e que isso vai mudar um dia.”

 

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