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Posts Tagged ‘Miguel Vellinho’

Primeiras Rosas 1

Primeiras rosas, espetáculo que marca os 25 anos da companhia paulista de teatro Pia Fraus, é imperdível para uma série de públicos. A quem desconhece o que seja teatro de animação, a peça apresenta diversas técnicas possíveis dessa arte tão plural, como sombras, manipulação direta e projeção ao vivo de vídeo. Para aqueles que ainda pensam que teatro de bonecos é coisa de criança, a montagem surpreende pela densidade e pela narrativa não-convencional. Estudantes e pesquisadores de artes dramtáticas se deparam com um rico banquete de possibilidades cênicas. Mestrandos de literatura comparada podem se deliciar com uma adaptação incomum de 4 contos de Guimarães Rosa, publicados originalmente no livro Primeiras Estórias. E os professores do Ensino Médio não deveriam desperdiçar esta chance de apresentar Rosa a seus alunos sob uma ótica diferente.

Cada um dos 4 contos escolhidos foi adaptado e dirigido por um diretor diferente. Esta opção, que poderia originar uma peça irregular, acabou resultando em um espetáculo rico. Alexandre Fávero, da companhia gaúcha Lumbra, ficou com o conto As margens da alegria, usando o teatro de sombras de forma deslumbrante e encantadora para contar a história de um menino da cidade grande que descobre a natureza na fazenda de um parente. Carlos Lagoeiro, do Teatro Munganga, companhia baseada em Amsterdã, impressiona ao usar vídeo ao vivo e manipulação direta para recriar no palco um bombardeio inspirado no conto O cavalo que bebia cerveja. Miguel Vellinho, da carioca Cia. PeQuod, mistura bonecos e atores em sua versão de A terceira margem do rio, grandiosa em ideias e em imagens (apresentadas ou sugeridas) ao falar de um homem que abandona a família para ir morar sozinho em uma canoa. Já Wanderley Piras, da paulista Cia. da Tribo, oferece teatro de bonecos mais convencional, e com resultado menos satisfatório, com sua adaptação de Sequência, a história de uma vaca fujona.

Em livro, os contos de Gimarães Rosa são lindos e profundos na investigação da complexidade humana. No palco, a Pia Fraus mantém sua qualidade e os apresenta de forma tão rica e original, que chega a ser tolo pensar em comparar os textos originais com a peça.

Primeiras rosas, entretanto, não é espetáculo que vá agradar a todos os públicos. Para muita gente, ele pode resultar enfadonho – apesar da curta duração de 70 minutos – ou complicado.

A peça fica em cartaz somente até hoje no Teatro do SESI, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Primeiras Rosas 2

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lampiao

Quem já conhece o maravilhoso teatro feito pela Cia. PeQuod, do diretor Miguel Vellinho, já sabe o que esperar de sua nova montagem, A chegada de Lampião no inferno, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro: muita criatividade, soluções cênicas inventivas, visual inesquecível, referências culturais diversas, bonecos e elementos de cena que dão vontade de levar para casa e uma encenação com a consistência de quem pesquisa e experimenta bastante antes de oferecer o resultado final ao público.

Tem sido sempre assim: os bonecos usados em cena são lindos; a cenografia de Carlos Alberto Nunes é marcante e cheia de surpresas, indispensável para a história; a luz de Renato Machado é complexa, dramática, refinada e digna de prêmios; e o diretor Miguel Vellinho se mostra um verdadeiro maestro na arte de reger e dar unidade à enorme quantidade de elementos em jogo. É um tipo positivo de mesmice, digamos assim.

Na primeira parte de A chegada de Lampião no inferno, é contada a trajetória do famoso cangaceiro, de forma bastante breve, mas inventiva, com o teatro de animação dialogando o tempo todo com o ofício dos artesãos nordestinos que eternizam a imagem de Lampião em pequenas esculturas de argila pintadas em cores chamativas. Na verdade, o verdadeiro homenageado da peça não é Virgulino Ferreira, mas Mestre Vitalino, ceramista pernambucano cuja obra é um grande tesouro brasileiro.

Para contar essa história, a Cia. PeQuod se utiliza de toda uma nova leva de encantadores truques cênicos – uma de suas marcas registradas – e também da soberba voz do ator Othon Bastos, que gravou narrações e poemas especialmente para a peça. A narrativa ganha tom mais documental quando se ouve o depoimento histórico de uma sobrevivente do massacre ao bando de Lampião, momento de realidade que só faz abrilhantar o espetáculo.

A segunda parte da peça é a propriamente dita chegada de Lampião ao inferno, fantasia inspirada nos tantos cordéis que abordam esse tema. Curiosamente, é nesse ponto, quando a história ganha ares de fábula, que os bonecos cedem espaço aos atores. Aqui, o elenco fica em foco e mostra de forma mais clara que são atores de verdade, não apenas manipuladores e contrarregras, como pode parecer aos olhos menos atentos.

A trilha sonora, feita por André Abujamra especialmente para A chegada de Lampião no inferno, é ótima, com personalidade, forte, de sonoridade moderna, ainda que tenha as tradições nordestinas em seu DNA. Talvez a música mais marcante seja a que invoca o zumbido de moscas e gritos, para pontuar a cena que mostra um menino encontrando os cadáveres de sua família. Em paralelo, há a direção musical de Thiago Picchi, muito hábil em transformar o trabalho dos artesãos pernambucanos em música, tendo apenas os elementos de cena como instrumentos, à exceção de um acordeon e de uma flauta – tocada por ele mesmo enquanto ator.

Como em todas as peças da Cia. PeQuod, o público sai de A chegada de Lampião no inferno com várias imagens na cabeça. Há grandes chances de você nunca se esquecer do monstro de três cabeças (o Cérbero da mitologia), do Diabo sentado em seu trono, do momento em que a oficina de cerâmica se transforma no inferno, da figura do Porteiro (guardião da chave das profundezas, interpretado pela sempre ótima Liliane Xavier) e de Lampião (Gustavo Barros, maior destaque do elenco nesta montagem) sendo engolido pelo barro.

São tantos detalhes dignos de nota, que é impossível lembrar agora de todos. Melhor você ir lá e assistir. A Cia PeQuod faz teatro do melhor sem ser convencional.

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