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Posts Tagged ‘crítica de teatro’

Primeiras Rosas 1

Primeiras rosas, espetáculo que marca os 25 anos da companhia paulista de teatro Pia Fraus, é imperdível para uma série de públicos. A quem desconhece o que seja teatro de animação, a peça apresenta diversas técnicas possíveis dessa arte tão plural, como sombras, manipulação direta e projeção ao vivo de vídeo. Para aqueles que ainda pensam que teatro de bonecos é coisa de criança, a montagem surpreende pela densidade e pela narrativa não-convencional. Estudantes e pesquisadores de artes dramtáticas se deparam com um rico banquete de possibilidades cênicas. Mestrandos de literatura comparada podem se deliciar com uma adaptação incomum de 4 contos de Guimarães Rosa, publicados originalmente no livro Primeiras Estórias. E os professores do Ensino Médio não deveriam desperdiçar esta chance de apresentar Rosa a seus alunos sob uma ótica diferente.

Cada um dos 4 contos escolhidos foi adaptado e dirigido por um diretor diferente. Esta opção, que poderia originar uma peça irregular, acabou resultando em um espetáculo rico. Alexandre Fávero, da companhia gaúcha Lumbra, ficou com o conto As margens da alegria, usando o teatro de sombras de forma deslumbrante e encantadora para contar a história de um menino da cidade grande que descobre a natureza na fazenda de um parente. Carlos Lagoeiro, do Teatro Munganga, companhia baseada em Amsterdã, impressiona ao usar vídeo ao vivo e manipulação direta para recriar no palco um bombardeio inspirado no conto O cavalo que bebia cerveja. Miguel Vellinho, da carioca Cia. PeQuod, mistura bonecos e atores em sua versão de A terceira margem do rio, grandiosa em ideias e em imagens (apresentadas ou sugeridas) ao falar de um homem que abandona a família para ir morar sozinho em uma canoa. Já Wanderley Piras, da paulista Cia. da Tribo, oferece teatro de bonecos mais convencional, e com resultado menos satisfatório, com sua adaptação de Sequência, a história de uma vaca fujona.

Em livro, os contos de Gimarães Rosa são lindos e profundos na investigação da complexidade humana. No palco, a Pia Fraus mantém sua qualidade e os apresenta de forma tão rica e original, que chega a ser tolo pensar em comparar os textos originais com a peça.

Primeiras rosas, entretanto, não é espetáculo que vá agradar a todos os públicos. Para muita gente, ele pode resultar enfadonho – apesar da curta duração de 70 minutos – ou complicado.

A peça fica em cartaz somente até hoje no Teatro do SESI, na Avenida Paulista, em São Paulo.
Primeiras Rosas 2

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as noivas de Nelson 00

Uma peça de teatro pode ter humor acessível, de fazer o público rir o tempo todo, sem ser chula, artisticamente pobre nem apelativa. Uma prova disso é As noivas de Nelson, montagem da Cia. Paulista de Artes, com direção de Marco Antônio Braz, atualmente em cartaz no Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro. O espetáculo tem texto de autor consagrado – Nelson Rodrigues – e potencial para fazer gargalhar tanto o sujeito sofisticado que não aplaude qualquer coisa quanto aquele que só compra o ingresso se o bilheteiro lhe assegurar que a peça é “de rir”.

as noivas de Nelson 01Alcançar essa equação é vitória das mais suadas. O mérito, neste caso, é dividido entre o diretor e o elenco. Ambos souberam explorar o que há de cômico nas tragédias, na linguagem e nos personagens de Nelson Rodrigues, ousando transformar drama em comédia. Não poderia haver meio-termo: ou daria muito certo, ou muito errado. Deu certo.

A peça reúne 5 contos de A vida como ela é, coluna que Nelson manteve no jornal carioca Última Hora ao longo dos anos 50: Excesso de trabalho, Delicado, O sacrilégio, O pastelzinho e Feia demais. Todos envolvem as ideias de casamento e morte, refletidas nos fúnebres figurinos e cenário de Juliana Fernandes e na maquiagem de Edivaldo Zanotti, com todo o elenco caracterizado como defunto.

as noivas de Nelson 02Os dez atores se revezam entre dezenas de personagens, saindo-se, em geral, muito bem, tanto nos papéis importantes quanto nos que são meras figurações. Mesmo quando os atores encarnam “personagens” sem fala e com cerca de apenas um minuto em cena, chama atenção o trabalho individual de cada um, ainda que haja outros tantos colegas no palco simultaneamente.

Braz, o diretor, recentemente premiado com o Shell pela direção de A alma boa de Setsuan, conduziu belamente essa grande “orquestra” de tantos talentos diferentes entre si, explorando cada oportunidade de humor no tempo certo, equilibrando momentos de histrionismo coletivo com outros em que um ou outro ator específico tem a oportunidade de brilhar sozinho. O ritmo do espetáculo, como um todo, é vertiginoso, mas a plateia nunca fica cansada. Pelo contrário: ao final dos 75 minutos de apresentação, paira o lamento por não haver um sexto conto de Nelson na peça.

as noivas de Nelson 03Um único porém, sem muita importância: talvez o espectador fosse embora ainda mais feliz se o conto escolhido para encerrar o espetáculo fosse outro que não Feia demais, pois o final deste não é propriamente engraçado.

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O auge de uma história de traição é, normalmente, a descoberta da infidelidade por parte do traído. Não é assim na peça Traição, de Harold Pinter, em cartaz no Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro, em montagem dirigida por Ary Coslov. Nesse texto primoroso, a revelação é o de menos, e o traidor é que é sempre o último a saber.

A história é contada de trás para frente, o que torna tudo mais interessante e surpreendente. Poderia ser tolo e previsível, se considerarmos que todo caso de traição conjugal é precedido de circunstâncias semelhantes. No entanto, Pinter usa o óbvio apenas como um esqueleto para a história, hábil em abordar temas como hipocrisia, cinismo, culpa, moral, mentira e o modo como os relacionamentos vão da atração física à indiferença, passando pelo amor.

Os diálogos são muito bons e econômicos, sem barrigas. Toda palavra dita ajuda a construir os personagens e a conduzir a história.

Tudo se concentra sobre o triângulo amoroso em questão: Emma, que é amante de  Jerry, o melhor amigo de seu marido marido, Robert. O espectador acompanha a trama desde muito tempo depois do rompimento do caso extraconjugal até o excitante início do mesmo, do final para o começo. E não há possibilidade de o público se confundir com o rumo invertido da história.

Os atores estão todos muito bem: Isabella Parkinson (Emma), Isio Ghelman (Jerry) e Leonardo Franco (Robert). Este último até foi indicado ao prêmio Shell por esse papel, mas isso não significa que ele brilhe mais que seus companheiros de palco. O talento do trio está igualmente equilibrado entre seus vértices.

Se o texto descarta qualquer excesso, prezando pela concisão, a montagem inteira é igualmente precisa, graças ao diretor Ary Coslov, também indicado ao Shell. Tudo no palco está na medida certa, sem firulas: as interpretações, o figurino de Rô Nascimento, a luz de Aurélio de Simoni e o cenário de Marcos Flaksman (outra das três indicações da peça ao Shell).

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A peça “Limpe todo o sangue antes que manche o carpete”, que encerrou ontem sua temporada no Solar de Botafogo, Rio de Janeiro, tem um certo experimentalismo (no bom sentido!), um toque não-realista na interpretação dos atores, dado pelo diretor, Vinicius Arneiro. E é sempre meio delicado falar do experimentalismo dos outros. Você não pode simplesmente dizer que é raso, tolo ou estéril, até porque, em teatro, tanto modismos quanto revoluções sempre podem começar de forma tímida.

Por tudo isso, digo apenas que não gostei de certas interferências estudadas que há nas atuações e de algumas marcações propositalmente ostensivas. Surtem efeito em alguns momentos, mas, no fim das contas, acabam gerando uma expectativa que é frustrada mais adiante. Por exemplo: é interessante ver os atores Bruno Ferrari e Pablo Falcão começar e recomeçar de formas diferentes a cena do primeiro encontro de seus personagens, mas é frustrante constatar, ao fim do espetáculo, que esse e outros experimentos não contribuíram para o desenvolvimento da trama. Acabam servindo mais para compensar a falta de profundidade do texto de Jô Bilac.

Além do mais, tais recursos têm um certo cheiro antigo de anos 80, talvez reforçado pelo visual preto e branco do simpático figurino de Julia Marini. Ou seja: como o experimento me fez olhar para trás, ficou difícil supor que ele pudesse evoluir para além da peça.

O texto é inspirado, nascido da banalização da violência e da busca amoral pelo sucesso. Faz-se graça com tais temas, e cabe ao espectador refletir a respeito ou não. Jô Bilac se saiu bem nos diálogos, mas nem tanto na costura entre eles, na estrutura, na construção de um discurso. Ou seja: embora as cenas, em geral, sejam boas e façam o público embarcar na viagem, o destino da mesma não é compensador, o todo não é redondo. Do elenco, quem tira melhor proveito dos diálogos é Tathiane Amaral.

Para ler sobre outras peças, clique aqui!

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