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Posts Tagged ‘Cia. PeQuod’

Para quem conhece os espetáculos teatrais da Cia. PeQuod, é inacreditável que o trabalho desse grupo carioca não seja nacionalmente famoso. Assistir às suas peças é sempre uma experiência encantadora e surpreendente, diferente de tudo que já se viu. Com sua nova montagem, Marina, em cartaz no Teatro 3 do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, eles maravilham o público mais uma vez. Porém, a julgar pela pouca repercussão que o espetáculo teve na imprensa, tudo indica que ainda não será agora que a PeQuod gozará do reconhecimento que merece, para além dos prêmios, editais e patrocínios que conquista rotineiramente.

Marina é uma adaptação do conto A sereiazinha (ou A pequena sereia), de Hans Christian Andersen. Quem só conhece a versão da Disney talvez se assuste ao descobrir que a história, originalmente, é uma tragédia nada fofa sobre uma sereia que abre mão de coisas demais em nome de seu amor por um homem. Ainda que seja teatro de bonecos, Marina é para adultos.

Boa parte da peça se passa dentro d’água, com bonecos deslumbrantes sendo manipulados com maestria no interior de quatro grandes aquários e de uma pequena piscina. A delicadeza, o colorido e os movimentos orgânicos das sereias impressionam pela realização perfeita, combinando técnica e ineditismo.

Como já é característico das montagens da Cia. PeQuod, teatro tradicional e teatro de animação se alternam e se complementam em Marina, explorando o melhor de dois mundos para construir uma narrativa tão rica em recursos quanto coesa. Cerca de 15 músicas de Dorival Caymmi são cantadas ao vivo e ajudam a contar a história, casando perfeitamente com cada trecho do conto de Andersen, como se tivessem sido compostas para ele.

O elenco se sai muito bem na árdua tarefa de interpretar, cantar, manipular e fazer contrarregragem ao mesmo tempo (um dos atores ainda toca guitarra e outro assume a iluminação em alguns momentos!). Até há os que cantam melhor do que atuam e vice-versa, mas o resultado é coeso, sem altos e baixos, com o grupo se sobressaindo aos indivíduos. Liliane Xavier, Mariana Fausto, Mona Vilardo, Leandro Muniz, Márcio Nascimento e Miguel Araújo formam um elenco que funciona como um organismo único, ainda que cada um tenha seu próprio papel e seu momento de destaque. É um esforço coletivo raro e bonito de ver.

O cenário de Carlos Alberto Nunes parece simples, mas, na verdade, é uma realização sem igual. Trata-se de um “pequeno” e versátil colosso de quatro toneladas de madeira, vidro e água que se estende por três ou quatro patamares e contém pelo menos oito ambientes diferentes. É um dos grandes trunfos de Marina – e é também o que deve inviabilizar sua ida para outras cidades.

A luz de Renato Machado é repleta de nuances e detalhes, fundamental para a narrativa e para a composição dos ambientes. Os figurinos de Daniele Geammal funcionam muito bem – são “invisíveis” quando o foco está nos bonecos, adequados e convincentes quando o foco está nos atores, contribuindo para a integração de ambos. A direção musical de Fabiano Krieger renova e valoriza o cancioneiro de Caymmi. E a preparação vocal de Doriana Mendes contribui muitíssimo para o equilíbrio de um elenco que mistura cantores experientes, atores que cantam ocasionalmente e atores que nunca cantaram, uma variedade de matizes que foi transformada em trunfo no lindo número musical Sargaço mar, por exemplo. Os bonecos, esculpidos por Bruno Dante e confeccionados por grande equipe, são primorosos, mas, infelizmente, só podem ser admirados em toda sua beleza se vistos de perto, o que não é possível durante o espetáculo.

E o diretor Miguel Vellinho é o grande maestro a orquestrar tantos talentos e recursos artísticos diferentes para a criação de um espetáculo único. Ele assina a dramaturgia e faz com que Andersen e Caymmi pareçam velhos parceiros de trabalho. Especialista em confecção e manipulação de bonecos, Vellinho aponta o teatro de animação como uma possível ferramenta para a renovação do teatro como um todo. Ele põe cantores para interpretar, atores para cantar e todos para manipular bonecos. O diretor ainda se dá o luxo de adaptar para o teatro recursos narrativos importados da edição de cinema. E se em A chegada de Lampião no inferno, seu espetáculo anterior, a contrarregragem era evidente e intensa, Vellinho conseguiu torná-la imperceptível em Marina, ainda que ela seja onipresente no palco.

Ao fim do espetáculo, a maioria das pessoas vai embora sentindo-se leve e absolutamente encantada com o visual, com a técnica e com o uso criativo das velhas canções de Caymmi. Mas também há uma pessoa ou outra que sai deprimida, por descobrir que a história não é como a Disney contou. Só não há quem não saia com a certeza de que nunca viu nada igual.

* Cuidado para não fazer confusão: Marina é espetáculo adulto, em cartaz de quarta a domingo às 20h; já Marina, a sereiazinha, é a versão infantil da mesma peça, apresentada pela Cia. PeQuod no mesmo teatro, somente aos sábados e domingos, às 17h.

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lampiao

Quem já conhece o maravilhoso teatro feito pela Cia. PeQuod, do diretor Miguel Vellinho, já sabe o que esperar de sua nova montagem, A chegada de Lampião no inferno, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro: muita criatividade, soluções cênicas inventivas, visual inesquecível, referências culturais diversas, bonecos e elementos de cena que dão vontade de levar para casa e uma encenação com a consistência de quem pesquisa e experimenta bastante antes de oferecer o resultado final ao público.

Tem sido sempre assim: os bonecos usados em cena são lindos; a cenografia de Carlos Alberto Nunes é marcante e cheia de surpresas, indispensável para a história; a luz de Renato Machado é complexa, dramática, refinada e digna de prêmios; e o diretor Miguel Vellinho se mostra um verdadeiro maestro na arte de reger e dar unidade à enorme quantidade de elementos em jogo. É um tipo positivo de mesmice, digamos assim.

Na primeira parte de A chegada de Lampião no inferno, é contada a trajetória do famoso cangaceiro, de forma bastante breve, mas inventiva, com o teatro de animação dialogando o tempo todo com o ofício dos artesãos nordestinos que eternizam a imagem de Lampião em pequenas esculturas de argila pintadas em cores chamativas. Na verdade, o verdadeiro homenageado da peça não é Virgulino Ferreira, mas Mestre Vitalino, ceramista pernambucano cuja obra é um grande tesouro brasileiro.

Para contar essa história, a Cia. PeQuod se utiliza de toda uma nova leva de encantadores truques cênicos – uma de suas marcas registradas – e também da soberba voz do ator Othon Bastos, que gravou narrações e poemas especialmente para a peça. A narrativa ganha tom mais documental quando se ouve o depoimento histórico de uma sobrevivente do massacre ao bando de Lampião, momento de realidade que só faz abrilhantar o espetáculo.

A segunda parte da peça é a propriamente dita chegada de Lampião ao inferno, fantasia inspirada nos tantos cordéis que abordam esse tema. Curiosamente, é nesse ponto, quando a história ganha ares de fábula, que os bonecos cedem espaço aos atores. Aqui, o elenco fica em foco e mostra de forma mais clara que são atores de verdade, não apenas manipuladores e contrarregras, como pode parecer aos olhos menos atentos.

A trilha sonora, feita por André Abujamra especialmente para A chegada de Lampião no inferno, é ótima, com personalidade, forte, de sonoridade moderna, ainda que tenha as tradições nordestinas em seu DNA. Talvez a música mais marcante seja a que invoca o zumbido de moscas e gritos, para pontuar a cena que mostra um menino encontrando os cadáveres de sua família. Em paralelo, há a direção musical de Thiago Picchi, muito hábil em transformar o trabalho dos artesãos pernambucanos em música, tendo apenas os elementos de cena como instrumentos, à exceção de um acordeon e de uma flauta – tocada por ele mesmo enquanto ator.

Como em todas as peças da Cia. PeQuod, o público sai de A chegada de Lampião no inferno com várias imagens na cabeça. Há grandes chances de você nunca se esquecer do monstro de três cabeças (o Cérbero da mitologia), do Diabo sentado em seu trono, do momento em que a oficina de cerâmica se transforma no inferno, da figura do Porteiro (guardião da chave das profundezas, interpretado pela sempre ótima Liliane Xavier) e de Lampião (Gustavo Barros, maior destaque do elenco nesta montagem) sendo engolido pelo barro.

São tantos detalhes dignos de nota, que é impossível lembrar agora de todos. Melhor você ir lá e assistir. A Cia PeQuod faz teatro do melhor sem ser convencional.

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