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Posts Tagged ‘Amy Winehouse’

Nunca me interessei pelos escândalos de Amy Winehouse. O que me escandalizava era o seu talento. Lembro perfeitamente de ter ouvido sua voz pela primeira vez em fevereiro de 2007. As notícias davam conta de que James Morrison e Amy Winehouse eram os vencedores dos Brit Awards de melhor cantor e melhor cantora naquele ano, mas eu não fazia ideia de quem eles eram. Então, no mesmo dia, baixei os discos dos dois. Achei Morrison apenas OK, quase chato. E fiquei bastante impressionado com Amy, que nunca mais saiu dos meus ouvidos.

Quando ouvi aqueles mp3 do álbum “Back to Black”, Amy tinha 23 anos e já flertava com a morte. Mas como ela ainda não era conhecida fora do Reino Unido, aquele meu primeiro contato com ela foi exclusivamente através de sua música, sem qualquer informação sobre sua vida, origem, hábitos, tipo físico, nada. O que ouvi me agradou muito e era mais do que suficiente: uma bela voz, interpretações com personalidade, arranjos de muito bom gosto, ótimas composições, sonoridade retrô, letras modernas. A cada nova audição, eu gostava mais daquelas músicas.

Eu não poderia imaginar que Amy Winehouse se tornaria um grande sucesso internacional. Suas canções destoavam demais da estética vigente nas paradas. Amy não tinha nada a ver com Britney Spears, Kelly Clarkson, Leona Lewis e suas demais colegas de geração, em nenhum aspecto. Ainda assim, ela acabou agradando tanto aos adolescentes quanto ao público maduro. Mas verdade seja dita: foi sua fama de encrenqueira que ajudou a disseminar sua música – uma pena.

Apesar de a obra-prima “Back to Black” ter sido o álbum mais vendido do mundo naquele ano, Amy era uma antiestrela por excelência. Sua bela voz não se prestava a malabarismos e exibicionismos. Sua interpretação era desprovida de pieguices e outros golpes baixos. Suas letras não faziam concessões ao politicamente correto. Seu visual era autêntico, estranho, suburbano, fora de moda, troncho, exagerado, improvisado, mas tornou-se uma marca registrada inspiradora. Seu comportamento era um desastre. Suas amizades só eram famosas nas delegacias de Londres. Suas entrevistas nunca trataram de dicas de beleza, sonhos de princesa, amores certinhos. Sua personalidade era à prova de estratégias de marketing e controle corporativo. Seu domínio de palco era quase nulo, uma vez que ela não dominava sequer suas paixões e vícios. Era total sua inabilidade para lidar com o estrelato, a mídia, o grande público, a indústria. Não era bonita nem gostosa. Ninguém gostaria de ser como ela. Ainda assim, Amy Winehouse triunfou comercialmente.

“Back to Black” era um em 2006/2007 e é outro agora em 2011. Quando o ouvi pela primeira vez, esse não era apenas um disco brilhante, era também uma força geradora de grandes expectativas. Se aquela fedelha fizera um trabalho tão bom aos 23 anos, o quão boa ela viria a ser na maturidade? Se já era tão prazeroso ouvir o álbum em mp3, como não seria ouvi-lo ao vivo? Mas hoje, infelizmente, “Back to Black” é, de certa forma, menos do que era então. É uma joia única que não terá oportunidade de ser superada nem desrespeitada pela artista que a criou. É a quase totalidade de um legado numericamente muito pequeno. É o ápice e o fim de uma cantora que nunca mais teve condições físicas nem psicológicas de criar e de se concentrar no trabalho. É o auge cristalizado de uma voz que, embora prescindisse de recursos tecnológicos para soar ótima, pouquíssimas vezes foi ouvida tão bem ao vivo depois desse registro de estúdio. É o triste som do que poderia ter sido, não mais o som doce do que poderá vir a ser.

Uma lástima. Mas as lágrimas secam por si mesmas, como ela cantou.

Clique aqui para ler também minha crítica sobre o show que Amy Winehouse fez no Rio de Janeiro em janeiro de 2011.











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As pessoas são como elas são. Isso independe do que você pensa delas e de como você gostaria que elas fossem. Eu, por exemplo, adoraria que Amy Winehouse fosse uma pessoa centrada, focada na carreira, sóbria e lúcida o suficiente para fazer shows impecáveis. Mas isso é problema meu, não dela, porque ela simplesmente não é assim e sequer sabe que eu existo. Amy é como ela é, não como eu gostaria que ela fosse ou como eu acho que ela poderia ser. Sim, ela é uma compositora original, intérprete superinteressante, dona de uma voz incrível e de um estilo marcante e autêntico. Mas ela também é alcoólatra, anoréxica, bulímica, bipolar, desconfortável com o sucesso, insegura, desequilibrada, autodestrutiva e usuária compulsiva de maconha, cocaína, heroína e crack. Nesse contexto, o show que ela fez nesta terça-feira (11/1) na Arena HSBC do Rio de Janeiro foi o melhor possível.

Sim, Amy não mostrou qualquer domínio de palco. Mas ela não tem nem domínio sobre si mesma!

Sim, Amy muitas vezes atravessava o ritmo, mas isso sempre fez parte do seu estilo de interpretação ao vivo.

Sim, Amy errou a entrada de algumas músicas, mas isso não destoa em nada de sua personalidade e foi proposital em certos momentos, porque shows de soul permitem esse tipo de coisa, o que é sempre uma oportunidade para a banda mostrar sua competência.

Sim, Amy esqueceu trechos de algumas letras, mas isso não é nada para alguém nas precárias condições físicas e psíquicas dela.

Sim, o show durou “apenas” 1h20, mas teve quase 20 músicas – razoável para uma artista que só lançou dois discos – e estava perfeitamente estruturado em início, meio, apresentação da banda, fim e bis.

De resto, dentro de seus limites, Amy falou com o público, se arriscou uma vez no português, cumprimentou a plateia, dançou rapidamente, sorriu moderadamente e se despediu com sua falta de jeito peculiar. Estes são detalhes de praxe em qualquer show, mas verdadeiros luxos quando vindos de alguém que não consegue sequer zelar minimamente pela própria vida.

Por tudo isso, ignoro o que muitos críticos do show consideram “problemas”. Para mim, foi uma experiência muito especial ver Amy Winehouse ao vivo, pelo tanto que eu admiro seu talento, ou pelo menos sua parca discografia.

Quando a ouvi pela primeira vez, em janeiro de 2007, ao baixar o álbum Back to Black três meses depois de seu lançamento, fiquei maravilhado. Fora da Inglaterra, ela ainda não era famosa, nem se tinha notícia de seu estilo de vida desregrado, mas as letras e interpretações que ouvi naqueles mp3 já tinham sido suficientes para me fazer crer que aquela era uma grande artista e que ela talvez morresse muito em breve, vítima de seu descontrole. Desde então, eu desejei ouvi-la ao vivo, mas duvidava que isso fosse possível, até porque ela era praticamente desconhecida. Eu tive o prazer de apresentar sua música a alguns amigos, que também se apaixonaram por ela de imediato. Pouquíssimo tempo depois, era quase impossível encontrar alguém que não tivesse ao menos ouvido falar dela. Mas Amy já estava firmemente enraizada no olimpo de minhas preferências musicais quando o furacão passou.

Não foi pela imprensa, mas por ela mesma, através de suas músicas, que eu soube que ela era autodestrutiva, vulgar, descontrolada, triste, difícil, encrenqueira. Portanto, quando me encantei por Amy, ela já era desse jeito. Para mim, a única surpresa do show foi o fato de ela ter vindo. E já que ela veio, tudo mais era previsível. Eu estava ali para viver uma experiência improvável e longamente desejada. Fui sem ilusões e, portanto, voltei sem decepções. E não fui o único a sair de lá plenamente satisfeito, a julgar pela calorosa reação de grande parte da plateia. Amy nunca enganou ninguém, nem conseguiria se quisesse. Quem saiu do show de terça-feira decepcionado provavelmente entrou lá iludido ou desinformado.

Para mim foi um enorme prazer ver de perto aquela figura caricata e autêntica, talentosa e frágil, digna de admiração e pena. Principalmente na primeira parte do show, Amy comprovou seu valor como cantora, compositora e intérprete, dentro do seu possível e fiel a sua personalidade, amplamente conhecidos. As músicas se sucediam com leveza e até alguma sensualidade, incluindo várias joias do álbum Back to Black (“Tears dry on their own”, “Some unholy war”, “Just friends”, “Wake up alone” e a maravilhosa faixa-título), uma versão deliciosa de “Boulevard of broken dreams” (do repertório de Tony Bennett e Nat King Cole), uma faixa de seu primeiro disco (“I heard love is blind”) e a bela “I’m On The Outside (Looking In)” (gravada originalmente por Little Johnny & The Imperials em 1964).

Como previsto, o meio do show foi delimitado por uma ausência temporária e planejada de Amy, que deixou o palco livre para seu backing vocalist Zalon cantar “What’s a man to do” e “The click”, canções que ele gravou com Mark Ronson para um álbum solo. Depois disso, Amy voltou, mas seus pés já se afastavam rapidamente do chão, zonza que estava. A partir daí, o público lhe emprestou vigor para apresentar os hits “Rehab”, “Valerie” e “You know I’m no good”. A grande banda foi apresentada em longa exibição de seus ótimos talentos individuais. E o bis fechou o espetáculo com “Love is a losing game” e “Me and Mr. Jones”.

Mais do que isso seria impossível, assim como é impensável Bono não interagir com a plateia, Madonna não desafinar, Britney não usar playback e Jagger não requebrar. Era Amy Winehouse ali, ora! Todo mundo sabia disso. Ou deveria.

PS: Como curiosidade, segue link para o primeiro texto que escrevi sobre Amy Winehouse, com minhas impressões iniciais sobre o álbum “Back to Black”. É uma crítica escrita em fevereiro de 2007.

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amy winehouse

O jornal britânico The Telegraph já fez sua lista das cem canções mais influentes dos anos 2000. No site do Telegraph, você encontra a lista completa e comentada. Aqui, só os dez primeiros lugares. Deu Amy Winehouse na cabeça! Muito justo.

1. Rehab (2006) – Amy Winehouse
2. I Bet You Look Good On The Dancefloor (2005) – Arctic Monkeys
3. Crazy In Love (2003) – Beyoncé
4. Yellow (2000) – Coldplay
5. Paper Planes (2008) – M.I.A.
6. Bleeding Love (2008) – Leona Lewis
7. Hurt (2002) – Johnny Cash
8. Seven Nation Army (2003) – The White Stripes
9. Can’t Get You Out Of My Head (2001) – Kylie
10. Hey Ya (2003) – Outkast

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Vídeo amador mostrando Amy Winehouse em suas férias no Caribe? Não, não é nenhum novo escândalo. É a cantora ao piano do hotel tocando e cantando Puppy love. Saudade desse talento:

[Via Teco Apple]

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O fotógrafo escocês Harry Benson é desses que têm um portfolio repleto de lendas, imagens icônicas, registros históricos e retratos reveladores. É fotojornalista bastante premiado, mas destaco aqui seus retratos de famosos. Apenas alguns:

Jack Nicholson, Montana, 1975

 

Valentino, Nova York, 1984

 

Dolly Parton, Nashville, 1976

 

Judy Garland, Copenhague, 1965

 

Daniel Day Lewis, Nova York, 1989

 

Greta Garbo, Antiqua, 1976

 

Michael Jackson, Neverland, Califórnia, 1993

 

Alfred Hitchcock, Los Angeles, 1969

 

Elizabeth Taylor, Los Angeles, 1997

 

Amy Winehouse, Londres, 2007

 

Bill e Hillary Clinton, Little Rock, 1992

 

Barbra Streisand, Central Park, Nova York, 1967

 

The Beatles e Cassius Clay, Miami, 1964

 

The Beatles, Hotel George V, Paris, 1964

 

The Beatles no Ed Sullivan Show, Nova York, 1964

 

The Beatles desembarcando em Nova York, 7-fev-1964

 

[Fonte: Harry Benson]

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Uma das maiores provas de que Amy Winehouse se tornou um ícone pop é o fato de muitas pessoas virem se apropriando de sua imagem para criar obras de arte, desfiles de moda, histórias em quadrinhos, vídeos etc. Seu cabelo bolo-de-noiva, suas tatuagens, seu olhar e sua silhueta peculiar estão em toda parte, não apenas na imprensa. A partir de hoje, Amy está também na galeria de arte ocontemporary, em Londres, na exposição New Paintings for Modern Times, em que o artista plástico inglês Gerald Laing se utiliza de fotos da cantora, publicadas em tablóides britânicos, para fazer pop art.

Laing, integrante da primeira geração da arte pop, começou pintando belas moças nos anos 1960, incluindo Brigitte Bardot. Dos anos 1970 aos 1990, dedicou-se às esculturas e a outros projetos. Somente em 2004 resolveu voltar às pinturas – revoltado com as notícias de tortura realizada por soldados norte-americanos em Abu Ghraib, Iraque, Laing usou as fotos da barbárie para protestar. Na época, ele se dizia indignado com o fato de o sonho americano, que inspirou tanta gente no passado, ter se transformado em uma forma de imperialismo. Ao pintar as mulheres militares torturadoras dos anos 2000, ele dizia estar mostrando às starlets que pintara nos anos 1960 o que faziam suas filhas e netas.

Passada essa fase, Laing agora se debruça sobre Amy Winehouse, sua mais nova musa. “O que me interessa é a combinação do maravilhoso poder gráfico da imagem de Amy e os eventos extraordinários e quase míticos de sua vida”, diz Laing.

Veja abaixo o resultado do fascínio de Gerald Laing por Amy Winehouse e também algumas amostras do trabalho que ele fez sobre a Segunda Guerra do Iraque e suas starlets de 40 anos atrás:

The Gethsemane Kiss, 2008

 

Gethsemane, 2008

 

The Kiss II, 2008

 

The Kiss, 2007

 

Mother and Child Kiss, 2008

 

Domestic Perspective, 2008

 

Thus Far and No Further, 2008

 

US on Top, 2004

 

Only One of Them Uses Colgate, 2004

 

Study for “Look, Mickey!”, 2004

 

Study for “Homage to Joseph Albers”, 2004

 

Brigitte Bardot, 1968

 

Stacy, 1968

 

Sandra, 1968

 

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A versão de cera de Amy Winehouse, no museu Madame Tussauds de Londres, não tem pereba, marcas de autoflagelação, dente podre, enfizema pulmonar nem pelanca. É tão perfeita, que dá saudade da cantora, como se ela já tivesse morrido. Ver que Amy não foi à inauguração da escultura, mas seus pais sim, aumenta ainda mais essa sensação estranha. 

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